Volta ao Mundo à vela

By 5 Outubro, 2011Reportagem

Debaixo de um sol abrasador na Marina do Parque das Nações, Rui Évora Soares entretinha-se a pintar o barco com o qual se aventurou numa corajosa volta ao Mundo. “Cuidou de mim durante quase dois anos, agora é a minha vez de cuidar dele”. Reformado da Força Aérea, Rui Soares decidiu, aos 60 anos de idade, envolver-se numa aventura única que só chegou ao fim no passado mês de Julho, em Lagos. “Não era exactamente um projecto antigo, a ideia surgiu naturalmente a partir de uma conversa com um amigo. Fui pesquisando como é que a viagem poderia ser feita e, em Janeiro de 2009, decidimos avançar”, lembra.
O percurso foi definido a partir da participação em três eventos organizados pelo World Cruising Club. Em Novembro de 2009, participou no ARC (Atlantic Rally for Cruisers), que faz a travessia do Oceano Atlântico entre Las Palmas e Santa Lúcia. Depois, entre Janeiro de 2010 e Abril de 2011, entrou no World ARC, uma viagem de circum-navegação com partida e chegada em Santa Lúcia. Finalmente, em Maio deste ano, participou no ARC Europa, regressando a Portugal no final de Julho, 35 mil milhas depois.

Paixão pela Vela
“Comecei a fazer vela quando era adolescente, nuns barquinhos pequenos no Tejo. Ainda fiz prancha à vela e, mais tarde, vela de cruzeiro em barcos de amigos. É um hobbie antigo que foi crescendo com o tempo”. Para Rui Soares, a paixão pela vela foi sempre acompanhada pela vontade de ter um barco e, há alguns anos, surgiu finalmente essa oportunidade: “A compra de um barco só se justifica se o utilizarmos bastante, porque tê-lo parado na marina é um hobbie muito caro. Foi só quando comecei a antever que ia ter tempo para usufruir dele, que acabei por comprar este barco”. A escolha recaiu sobre um Moody 42 de 1987, um veleiro que, nas palavras de Rui Soares, é “antigo, mas bom, de um bom tempo e de uma boa marca”.
Foi este prazer de navegar à vela que impeliu Rui Soares para a participação nesta viagem. Para o navegador, parte desse prazer tira-se da própria gestão do barco: “Fazê-lo progredir usando o vento é um exercício que me dá prazer. Perceber o que somos capazes de fazer com as condições que se nos apresentam representa para mim um desafio pessoal. Fui piloto na Força Aérea durante 40 anos e tenho aprendido que uma vela tem reacções aerodinâmicas muito parecidas com as de uma asa”.
Por outro lado, o prazer goza-se também a partir das próprias vivências da viagem: “Podemos usufruir de uma sensação de liberdade, paz e sossego que só o mar nos pode transmitir. Julgo que há poucas coisas tão bonitas como ver o nascer ou o pôr do sol na imensidão do mar.” De qualquer forma, Rui Soares admite que, quando o tempo não ajuda, o conforto e o prazer que se tira desta experiência é bem menor. “Mas faz parte, até porque na vida não há só dias de sol”.
Por essa razão, quando quer convencer alguma pessoa das virtudes da náutica, Rui Soares tem o cuidado de escolher um dia de sol para a levar num passeio de barco. “Se mesmo nessas circunstâncias, a pessoa não se sentir confortável, então não há hipótese porque nunca gostará disto. Se se sentir bem, pode ser que a partir da experiência desenvolva algum interesse por estas actividades. Mas só se experimentar é que pode perceber se gosta ou não”.

Da Teoria à Prática
“Li muitos livros com grandes teorias e conselhos relativos a aspectos práticos da navegação, mas nada como conhecer bem o barco e adaptar as nossas necessidades às circunstâncias que vamos enfrentando”. Para Rui Soares o desafio de andar à vela representa sobretudo uma experiência pessoal e particular, difícil de generalizar em verdades inquestionáveis. “Antes da viagem, fizemos uma revisão detalhada do barco. Tínhamos que ser nós a fazê-lo de modo a conhecer o veleiro a 100%, porque neste tipo de viagens estamos muito dependentes de nós próprios”.
Com tanto tempo passado no reduzido espaço de um barco, sem nada no horizonte que não seja o mar, Rui Soares levou amigos ou conhecidos como tripulantes, o que constituiu um importante contributo para o sucesso da viagem: “É fundamental aprender a viver num espaço restrito com outra pessoa, tendo em vista um objectivo comum.”
Mas uma volta ao mundo é, sobretudo, uma prova de resistência que exige do organismo uma adaptação aos horários de trabalho definidos pela tripulação. “Pela minha experiência, precisamos de uns quatro dias para nos adaptarmos ao ritmo de dormir quatro horas e trabalhar outras quatro. Um dos meus turnos começava às 6 da manhã e, ao fim de alguns dias, já acordava a essa hora sem despertador”, contou Rui Soares que, curiosamente, revelou ter tido grandes dificuldades para retomar em terra o ritmo normal do sono, acordando várias vezes durante a noite.
O dia-a-dia em viagem divide-se essencialmente em dois momentos: quando se trabalha e quando se descansa. “A tripulação organiza-se em ‘quartos’ (turnos de trabalho). Quando se está de ‘quarto’, o barco fica sob a nossa responsabilidade. Entre outras coisas, temos de ver a navegação, a afinação das velas, se há navios por perto e se o barco está bem equilibrado”, refere Rui Soares, salientando ainda a importância de se saber gerir o cansaço: “Quando é para descansar, deve-se descansar a sério. Se não o fizermos, vamos acumulando cansaço sem dar por isso e podemos não ser capazes de dar a melhor resposta quando os problemas surgirem”.
Além de se dormir, os períodos de descanso servem para ler, pescar, pensar, olhar para os golfinhos ou para as estrelas. Enfim, para usufruir. “Há quem diga que os dias de vela são fotocópias, mas não concordo muito. Podem ser muito parecidos, mas creio que não há dois dias iguais”.
Mas por muito animados que sejam os dias, as saudades é que não se esquecem tão facilmente. O telefone por satélite vai colmatando o problema, mas a distância física continua a ser difícil de ignorar: “Do que senti mais falta foi dos meus amigos e da minha família. É que estamos no meio do oceano a milhares de milhas de toda a gente. Tive a minha mulher comigo durante uma parte da viagem e foi logo completamente diferente”, admite Rui Soares.     “Provavelmente, fazemos mais refeições do que em casa, mas sempre mais ligeiras”. Uma longa travessia do oceano pode ser dura e os cuidados com a alimentação não podem ser descuidados. Grandes banquetes que convidam à indigestão são naturalmente a evitar. De acordo com Rui Soares, só ao almoço é que costumava ter lugar uma refeição quente e mais substancial. Ao jantar comia-se essencialmente sopa e ao longo do dia disfarçava-se a fome com o que havia à mão. Só comidas sãs, nutritivas e fáceis de digerir é que constavam da ementa de viagem.

A escolha dos alimentos para levar a bordo assume, por isso, particular importância. Rui Soares teve de passar por um processo de aprendizagem até acertar nas melhores opções: “De início, escolher a comida é um grande problema. Compram-se coisas desnecessárias e outras que se estragam rapidamente e não se consomem. Mas à medida que percebemos quanto tempo é que os alimentos se mantêm preservados no nosso frigorífico, vamos comprando de forma mais acertada e já nada se estraga durante a viagem. Depois é só saber gerir a alimentação no barco: os primeiros dias são para produtos frescos e só depois é que vêm as massas e os enlatados”.

E pescar? Haverá melhor ocasião para o fazer do que no meio do oceano? Rui Soares até conseguiu algum peixe fresco, sobretudo dourados e atuns, mas admite que nunca foi grande adepto da actividade: “Só pesco para comer e não por prazer. Sempre que havia peixe a bordo não pescava. Também é verdade que não tinha grande capacidade de congelação, portanto tudo o que pescava tinha que comer logo.”

Altos e Baixos
Em dois anos de volta ao Mundo, Rui Soares viveu muitos momentos fantásticos, mas também alguns muito complicados. O navegador não tem dúvidas em eleger a travessia do Oceano Índico como a parte mais difícil do percurso: “Já tínhamos apanhado algumas situações desagradáveis, mas duravam só um dia ou dois. Dos 18 dias que demorámos a atravessar o Índico, 11 foram de muito mau tempo. Quando chegámos às Maurícias estávamos completamente de rastos. Foi mesmo muito violento”. Ainda hoje, Rui Soares admite que pretende evitar o Índico em futuras aventuras, mas reconhece que para fazer viagens de circum-navegação não há outro caminho.

Para além das desventuras passadas no Índico, Rui Soares confessa ter saído desapontado do Brasil e da Austrália, dois países nos quais depositava grandes expectativas. Se, no primeiro caso, a questão foi sobretudo de ordem logística (chegou com problemas no barco e não teve sorte com as pessoas que encontrou), já na Austrália foram mesmo os locais visitados que não foram os mais apropriados: “Fizemos o trajecto pelo norte da Austrália, uma zona mais selvagem, menos populosa e com uma paisagem muito agreste. Fomos conhecendo algumas cidades muito pequenas, e não correspondeu de todo às expectativas que tinha criado. Saí desapontado da Austrália, mas reconheço que também não fomos à parte mais civilizada e turística do país”.
Quanto aos sítios de onde guarda as melhores recordações, Rui Soares destaca a Cidade do Cabo, as Bermudas e sobretudo a zona da Polinésia Francesa, no Pacífico Sul: “Andei por aí uns dois meses, em locais como o Tahiti e Bora Bora. É de facto uma região absolutamente paradisíaca. Tem um mar de 28 graus, muito limpinho, calmo e com uma cor fantástica”, recorda.

A Opção pela Marina do Parque das Nações
Quando Rui Soares deu início à sua longa aventura, em Novembro de 2009, ainda a Marina do Parque das Nações dava os seus primeiros passos. Dois anos depois, terminada a viagem, a nossa marina foi a escolhida para deixar a embarcação e Rui Soares explicou-nos porquê: “É um lugar simpático, com marinheiros disponíveis para ajudar. Gostei da agressividade comercial e da simpatia das pessoas e, como o preço me agradou, tomei a decisão de vir para aqui”. Mesmo salvaguardando que só está nesta marina há pouco mais de um mês, Rui Soares mostra-se bem agradado e vê como problema único o facto de se situar um pouco longe do mar. Nada que um bom planeamento de viagem não minimize.
Tendo conhecido dezenas de marinas ao longo dos últimos dois anos, Rui Soares salienta a importância de poder contar com uma casa-de-banho limpa e chuveiros: “É muito importante chegar ao fim de vários dias de viagem e poder tomar um bom duche quente, numa casa-de-banho em condições. Neste aspecto, a Marina do Parque das Nações está bem apetrechada”, garante. Pela experiência já adquirida, Rui Soares não deixou de fazer alguns conselhos para um melhor funcionamento desta marina, nomeadamente a instalação de uma rede wi-fi que já se encontra hoje a funcionar: “Trata-se de um factor importante, não tanto para os utilizadores locais da marina, mas sobretudo para os ‘passantes’ que precisam de aceder à Internet para saber novidades ou consultar o e-mail”.
Para Rui Soares, a Marina do Parque das Nações deve evoluir no sentido de atrair mais turistas estrangeiros que procurem um local para deixar o barco durante o Inverno: “Esta marina situa-se perto do aeroporto, está bem protegida e tem um estaleiro muito útil para resolver pequenos problemas. É o sítio ideal para deixar o barco a invernar e esse é um negócio que pode vir a ser muito importante”.

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Ficha Técnica

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Fotografia: Miguel Ferro Meneses

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