Perigos e Mitos

By 2 Agosto, 2010Reportagem

A proximidade do Parque das Nações ao rio Tejo sempre foi encarada como um dos seus principais atractivos, senão mesmo o principal. Apesar de Lisboa ser uma cidade que, ao longo da sua história, esteve sempre intrinsecamente ligada ao mar e ao seu rio, o Parque das Nações acaba por ser das poucas zonas habitacionais da capital que verdadeiramente se pode orgulhar de ser banhada pelo Tejo.
Mas se o rio é visto como um dos grandes privilégios de quem habita neste espaço, e é de facto impossível dissociar o Parque das Nações do Tejo, importa também conhecer o outro lado da moeda e perceber até que ponto o rio pode representar um perigo para o bairro e para os seus moradores.
Falámos com as geólogas Maria da Conceição Freitas e Isabel Moitinho de Almeida, professoras do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no sentido de perceber quais os riscos que podem derivar da proximidade ao rio e de desmistificar alguns dos receios erradamente associados ao estuário do Tejo.

Os Receios Infundados    
Um dos perigos sempre muito associado à proximidade de um rio é o das cheias. E efectivamente, no que diz respeito ao Tejo, não é raro vermos a água extravasar o leito na zona de Santarém, causando elevados danos e prejuízos para quem vive perto das margens. No entanto, de acordo com a professora Maria da Conceição Freitas, a área do Parque das Nações está, em princípio, imune a este fenómeno: “É muito difícil que esta zona venha a ser afectada por cheias. É certo que continuam a existir na região de Santarém, mas no estuário do Tejo já não temos cheias há muitos anos. O Parque das Nações situa-se praticamente no Mar da Palha, uma imensa área de estuário onde o leito do rio se alarga”. Isto faz com que a subida do nível das águas seja aqui pouco significativa, mesmo em períodos de caudais excepcionais. “Além do mais, toda esta zona está muito controlada com diques marginais, sendo pouco provável que venham a existir problemas de cheias”, conclui.
Igualmente improvável é um cenário de enxurrada, semelhante ao que foi registado na ilha da Madeira no início do ano. “Nesta zona, só se acontecesse no rio Trancão, mas mesmo esse não tem uma bacia hidrográfica muito grande, além de que as condições são totalmente diferentes das que se encontram na Madeira, uma vez que não há uma pluviosidade excepcional nem sequer uma zona montanhosa”, garantiu-nos a geóloga.

Os Perigos Reais
No que diz respeito à ocorrência de tsunamis, Maria da Conceição Freitas considera que esta é uma possibilidade realista. No entanto, o Parque das Nações não se encontra numa localização particularmente desfavorável quando comparada com qualquer outra região marginal: “O tsunami é um perigo real, mas afectaria a zona do Parque das Nações como qualquer outra em localização similar. Em Lisboa, o exemplo mais paradigmático é o que ocorreu com o terramoto de 1755, onde o mar entrou pelo Tejo e invadiu as zonas ribeirinhas [a água alcançou uma distância de 250 metros e terá sido responsável pela morte de cerca de mil pessoas]. Uma onda de tsunami pode ter uma altura que ultrapassa as estruturas de contenção marginais e, nesse caso, constituirá um perigo real. Claro que não deve chegar aos pontos mais altos do Parque das Nações, mas tudo o que sejam cotas baixas (até aos 10 metros) estarão em risco de ser atingidas”.
Outro processo que a geóloga entende ser capaz de vir a causar alguns incómodos é o da subida do nível do mar, como consequência do aquecimento global. “O nível médio do mar deve subir cerca de 80 centímetros até ao final do século. Espera-se que esta subida seja gradual, mais lenta até 2050 e depois um pouco mais acelerada. O nível do mar tem estado a subir a uma taxa de pouco mais de 2 milímetros por ano, portanto este é um fenómeno real, que está a acontecer e que vai continuar a acontecer.     No caso do Parque das Nações, o mais provável é que as cotas de soleira dos edifícios não tenham tido isto em conta, já que na altura em que foram construídas (há mais de 10 anos) estas preocupações ainda não eram tão evidentes. Aliás, mesmo nos dias de hoje, nem todos os empreiteiros se preocupam com esta questão”, revela a professora Maria da Conceição Freitas. “Assim, é de esperar que se venha a ter que subir algumas defesas marginais e estimar qual será a cota de soleira mínima para que não existam mais problemas com a eventual subida do nível do mar. O que também poderá ser afectado são as caves, que muito provavelmente vão passar a ter mais inundações, já que a subida do nível do mar também tem implicações no nível freático.”
De qualquer forma, não é caso para alarmismos, até porque se trata de um fenómeno gradual: “O nível do mar não sobe 40 centímetros de uma vez e as autoridades responsáveis acabam por se ir adaptando. Terão de subir um pouco as defesas marginais se for caso disso e, se virem que há mais inundações nas caves, vão ter que fazer bombeamentos mais frequentes. Note-se que só depois de meados do século é que a subida do nível do mar se começará a notar mais”, afiançou-nos Maria da Conceição Freitas.
A docente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa aproveitou ainda para lembrar a necessidade de se manterem os cuidados com a preservação da qualidade da água do Tejo: “Será mais um problema criado pela cidade ao rio do que o inverso, ainda que, obviamente, as próprias populações que vivem ao pé do rio também saim prejudicadas se este estiver poluído.”

Os Terrenos
Outra questão muito associada à proximidade do rio prende-se com as características dos solos, que poderão ter consequências ao nível da instabilidade dos terrenos. No entanto, de acordo com a professora Isabel Moitinho de Almeida, os regulamentos da construção devem prevenir qualquer problema nesse sentido: “O Parque das Nações é uma zona em parte conquistada ao rio, com materiais brandos: aluviões e aterros. Só que, em princípio, as fundações das estruturas não deverão estar nessas formações, mas em profundidade. Tratam-se de construções recentes, inseridas num plano de urbanização, e portanto não existem grandes riscos desse tipo, nem mesmo em relação aos edifícios, que são o que transmite maiores cargas.”

A título de exemplo, a geóloga explicou-nos como foi resolvido o processo de consolidação do aterro: “Em toda a zona em que o aterro foi construído e onde está agora o passeio marginal, os materiais de fundação do aterro não estavam consolidados. Com o tempo, ao sofrerem o processo de consolidação, poderia levar a que os vazios reduzissem, provocando uma tendência para assentamentos à superfície. Para evitar este cenário foi construído um outro aterro por cima (que depois foi retirado) que, provocando um aumento de carga, levou à consolidação dos materiais”, afirmou Isabel Moitinho de Almeida, concluindo que não teme grandes problemas neste sentido: “Com o conhecimento hoje existente, não há razão para dificuldades relacionadas com as características dos materiais. Não tem nada a ver com o que se passa na Baixa, que foi construída numa época muito diferente e com metodologias muito distintas.”
A geóloga alinha pelo mesmo discurso no que diz respeito ao comportamento dos terrenos em caso de sismo, salientando os cuidados que existiram na construção dos empreendimentos da zona do Parque das Nações: “Além de terem as fundações naquilo a que chamamos o substrato, estes edifícios foram construídos segundo os regulamentos anti-sísmicos recentes. Costuma-se dizer que, em caso de sismo, os melhores sítios para estar em Lisboa são as pontes porque, embora até possam estar próximas de falhas, foram estruturadas, projectadas e construídas tendo em conta os efeitos de sismos. Claro que Lisboa tem risco sísmico, mas a área do Parque das Nações não é particularmente perigosa em comparação com outras zonas da cidade”. Este facto está, aliás, bem expresso na carta de “Cenário Sísmico de Danos” onde se constata que, em caso de sismo, a percentagem de edifícios com danos severos no Parque das Nações será relativamente reduzida quando comparada com a expectável para outras zonas da cidade.
Quanto à questão da possível inundação das garagens, Isabel Moitinho de Almeida refere que a construção das mesmas terá sido realizada de modo a evitar quaisquer problemas: “Os níveis freáticos na zona da Expo são altos mas, em princípio, as obras subterrâneas são estanques e as garagens têm sistemas de bombagem. Por isso, a não ser que haja algum dano que permita a entrada de água, não vejo razão para inundações”.  
No fim de contas, se a proximidade do rio pode representar alguns riscos para o Parque das Nações, grande parte dos mesmos terão sido tidos em conta durante todo o processo de projecção e construção deste espaço. É precisamente o que refere a professora Isabel Moitinho de Almeida: “Hoje em dia os regulamentos de construção são muito mais exigentes do que eram no passado. Viver numa zona recente acaba por ter sempre essa vantagem…”

Bernardo Mata

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