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O Movimento Slow surgiu pela necessidade de um contrapeso à tendência para o excesso de Velocidade e de Quantidade. Tem vindo a ganhar dimensão informalmente, surgindo da associação de pessoas que partilham de valores e necessidades semelhantes.
Nesta edição, importa dar a conhecer as origens deste Movimento e a forma como tem vindo a ramificar-se por todo o mundo – ao ritmo de uma trepadeira verde e viçosa – bem como, os motivos pelos quais começa a ganhar peso em áreas-chave da sociedade, na tentativa de semear um Futuro Sustentável para a nossa Civilização.

O Tempo… Actualmente vivemos em Sociedades cada vez mais complexas, governadas por uma tirania Universal onde a mudança é a Rainha soberana que, numa união perfeita com o implacável Tempo, ditam o ritmo frenético que se divide em fragmentos de tarefas, obrigações, deveres, actividades de lazer ou profissionais, encontros e desencontros, contabilizados pelo exército de milésimos de segundos com os quais travamos uma guerra sem tréguas, a fim de defendermos os “Nossos” dias, o “Nosso” Tempo! Semana-a-semana, mês após mês, ano após ano, numa Ditadura que está a destruir a Felicidade e a Qualidade de Vida da Humanidade.

Controlar o Tempo tornou-se uma obsessão equiparada à descoberta da Fonte da Juventude.
O Tempo é o bem mais precioso e escasso da Humanidade porque é transversal a tudo. Se repararmos bem, o Tempo é o que de mais frágil temos. Cada minuto que passa não o recuperamos mais. E perante isto, o Homem entende como é deveras vulnerável ao Tempo e ao que faz que este, tal como Sting entoa docemente no seu hino à fragilidade Humana -“How Fragile We Are” (em, Fragile).
É nesta conjuntura de factores que a Humanidade enfrenta – a dura batalha que, principalmente, o Ocidente trava contra o passar do Tempo e a necessidade de ter de fazer sempre mais para não perder a “corrida” – que surge o Movimento Slow.

SLOW, Porquê?
O Movimento Slow é uma corrente mundial e contemporânea assente numa filosofia de vida motivada para desafiar a cultura da velocidade, da quantidade e do excesso. Trata-se de um grupo anónimo de pessoas, informalmente organizado, que a nível mundial exerce essa luta contra a ditadura acima descrita, com vista a defender a Humanidade desta sobrecarga frenética, privilegiando a Vida ao ritmo certo, com qualidade, equilíbrio e bem-estar, em todas as áreas da nossa vida.

Isto parece-lhe impossível?
Antes de desenvolvermos mais acerca do Movimento Slow, importa ir à raiz desta dúvida.

A Nossa Relação com o Tempo versus o Movimento Slow
Existem duas questões às quais importa responder para melhor entendermos tudo isto: a primeira é esclarecer os motivos que nos levaram a este ritmo. E em segundo lugar, importa mesmo questionar se realmente acreditamos e queremos desacelerar, como se questionou Carl Honoré, autor do livro “In Praise of Slow”, e quem melhor tem divulgado este movimento um pouco por todo o mundo.
Respondendo à primeira questão, – como chegámos até este modelo de sociedades frenéticas – tendemos sempre a refugiarmo-nos nos suspeitos do costume, como Carl defende: “culpamos o desenvolvimento tecnológico, o urbanismo, o trabalho e o consumismo. Mas, se retirarmos estes factores mais óbvios, numa primeira análise, chegamos ao factor mais relevante desta equação: a forma como nós – o Homem – entende e encara o Tempo.”
Há milhares de anos atrás, o Homem começou por entender o mundo com base na observação dos ritmos da Natureza e o entendimento da Vida e do “Tempo” – não entendido como o percebemos hoje – era baseado no mundo natural, através dos ciclos lentos da Natureza, sentindo-se o Homem como uma extensão deste maravilhoso mundo vivo e auto-sustentável.
Muito antes da Revolução Industrial, o Tempo assumiu outras dimensões, passando a ser categorizado em várias métricas, à medida que o Homem foi sentindo uma necessidade premente de o controlar, mas foi essencialmente a partir do período industrial que, através das políticas de trabalho, da introdução dos relógios de ponto, o Tempo passou a ser controlado ao minuto.
A partir daqui, tornou-se cada vez mais evidente que o Tempo é algo bastante linear, um recurso que se esvai sem que o possamos controlar ou reter, tal como a areia fina e branca da praia nos escorre por entre os dedos da mão. “Ou o usamos ou o perdemos”, como Honoré se refere ao Tempo. E este é o ponto nevrálgico desta questão: o que fez o Homem ao entender o Tempo como um recurso que se esgota, quer o utilize ou não?

“O Tempo Perdido Nunca Mais se Recupera” é uma das citações mais conhecidas de Benjamim Franklin e que determina a pressão que as Sociedades actualmente sentem em Acelerar. Tentamos fazer cada vez mais, em menos Tempo, em prol do melhor aproveitamento deste recurso tão efémero… Não queremos “perder” um segundo, não temos tempo para dizer bom dia e sorrir à senhora do quiosque que nos vende o jornal do dia, porque nem nos apercebemos de quem ela é: “não há tempo a perder”, e entramos no Metro que nos leva ao emprego onde aproveitamos para ler os principais títulos da actualidade, sem nos apercebemos do que está à nossa volta – certamente a mesma massa cinzenta que todos os dias se cruza com a nossa velocidade em modo de piloto automático e que circula neste mesmo ritmo e da mesma forma automatizada, como se já fizesse parte do nosso ADN e do nosso relógio biológico.
Nunca houve uma pressão e uma ansiedade tão imensa como nos nossos dias, em “Poupar Tempo”, como se se pudesse depositar umas fracções de minutos numa conta a prazo onde o Tempo rendesse um pouco mais, enquanto sentimos que não o podemos usar para o que mais queremos fazer. Esta é a forma como o Homem passou a encarar o Tempo.

Em relação à segunda questão que Carl Honoré nos coloca, e bem: “será que realmente acreditamos e desejamos desacelerar? E será mesmo possível abrandar e aderir a novas formas de estar e de ser?…
Felizmente, a resposta é Sim, é possível! Mas ainda lhe parece impossível, certo?
Há uma massa crítica de indivíduos, um pouco por todo o mundo, que estão a aderir a novos padrões de vida, optando por menos, ganhando em mais Tempo e qualidade de vida. Menos pode de facto significar  Mais e Melhor. Por exemplo, indivíduos que passaram a trabalhar menos horas, correndo o “risco” de serem mal vistos nas empresas onde muitas vezes – por desempenharem funções como quadros superiores e coordenarem vastas equipas – existe uma grande pressão e competição, sendo muitas vezes o número de horas que a pessoa passa na empresa o factor decisivo na respectiva avaliação de desempenho.
Pois alguns destes indivíduos que, por circunstâncias muitas vezes forçadas – como motivos de doença, stresse e ansiedade, entre outros – optaram por aderir a um novo estilo de vida conquistando mais tempo para eles próprios.
Os resultados foram significativos: trabalham melhor, têm tempo para fazer exercício físico, têm mais tempo para a família e amigos, para eles próprios e são mais produtivos nas suas empresas, tornando-se até mais criativos em importantes processos de decisão.
Este é apenas um exemplo do que podemos fazer pelas nossas vidas, ao introduzir uma ligeira mudança, permitindo-nos um maior grau de satisfação diário e não apenas quando alcançamos os curtos fins-de-semana ou nas férias que voam demasiado depressa.
Existem, porém, exemplos de mudanças mais drásticas. Pessoas que optam por uma redução nos seus rendimentos em troca de mais Tempo para estar com a família, para se dedicarem mais à educação e acompanhamento do crescimento dos filhos, ou até mesmo para se dedicarem a outras actividades que as preencham mais que o trabalho que realizam, e que por isso mesmo, as tornam mais felizes, motivadas e mais sensibilizadas para os pequenos prazeres da vida.
Clarament
e há aqui um preço a pagar. Ao optar por um trabalho em part-time, por exemplo,  os rendimentos mensais serão também mais reduzidos, no entanto, há uma série de despesas que irão igualmente reduzir e que, em muitos casos, se verifica um ligeiro acréscimo no rendimento total de um casal..

É nesta conjunção de atitudes, momentos, e actos de desaceleração que residem os valores e a identidade que geraram a essência do Movimento Slow Internacional.
Na próxima edição, irei apresentar-vos o Movimento Slow – a sua história, os grandes desafios que trava, bem como, descrever o crescimento deste Movimento a nível mundial e a importância que está a ganhar em várias áreas como, a Saúde, a Política e o Mundo Empresarial.

Até lá… reflicta um pouco sobre este tema. Aconselho vivamente a estar mais atento aos diversos momentos dos seus dias – no trajecto para o trabalho, na empresa, quando está com os seus filhos (se fôr o caso), quando está com os amigos, etc. .
Faça uma pequena pausa, ganhe algum distanciamento dos “Dias” e tente avaliar como está a qualidade do seu Tempo e principalmente, a forma como está a lidar com este.
Slow Regards.
Alexandra Sampaio Pássaro

Slow Way
info.slowway@gmail.com

Ficha Técnica

Director: Miguel Ferro Meneses

Redacção: Ana Penim; André Ribeirinho; Carmo Miranda Machado; Conceição Xavier; Diogo Freire de Andrade; Miguel Soares; Paulo Andrade; João Bernardino; João Catalão; José Teles Baltazar; Pedro Gaspar; Rita de Carvalho; Sara Andrade; Sónia Ferreira

Fotografia: Miguel Ferro Meneses

Direcção Comercial: Bruno Oliveira (Directo - 966 556 342)

Revisora: Maria de Lurdes Meneses

Produção: Central Park

Impressão: GRAFEDISPORT Impressão e Artes Gráficas, SA

Tiragem: 13.500 Exemplares

Proprietário: Central Park Sede Social: Passeio do Levante - Lote 4 - Torre Sul 1990 -503 LISBOA

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