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“Quando as coisas acontecem demasiado depressa, ninguém pode estar certo acerca de nada, acerca de nada mesmo, nem sequer de si próprio” –  Milan Kundera.

Uma noite em que voltava a sair muito tarde da Agência, deixei-me levar por um desejo apático de sentir “Vida” à minha volta. Esqueci o cansaço e acabei por vaguear durante quase 2 horas por uma livraria…
Adoro livrarias, sentir o cheiro dos livros, procurar novos títulos… Mas naquela noite, deambulava apenas, resiliente, sem procurar nada de concreto. Caminhava vagarosamente por entre livros e desconhecidos que àquela hora ainda faziam compras. Apesar do passo lento, os pensamentos corriam a maratona como se o mundo terminasse a qualquer momento, sentindo-me perdida no turbilhão de questões que procuravam desesperadamente respostas.
Não tinha tempo para nada. Nem para pensar na minha Vida!
Estava sempre a chegar tarde a casa e os fins-de-semana em que não trabalhava,  acabavam por ser aproveitados para  tratar da casa, contas para pagar, entre outras rotinas básicas do dia-a-dia e… para descansar.

Como se isto tudo não chegasse, sentia-me um “guiché” de reclamações…
Amigos que nunca estão comigo e reclamam a minha presença em jantares onde nunca consigo estar, em saídas divertidas onde nunca chego a aparecer, já para não falar da família que reclama a minha atenção nas conversas triviais de fim-de-semana, tal como a presença nos almoços de Domingo que acabam por ser sempre mais prolongados…
Estava cansada das reclamações. Mas pior que isso… sentia-me saturada das minhas desculpas de sempre que me forçavam a não estar presente… no Presente.
Sentia a Vida a passar ao lado. Achava sempre que era uma questão de Tempo… E ia adiando o Tempo para estar comigo, o Tempo para me dar aos outros, mas principalmente, o Tempo para usufruir de mim.
Sentia-me “entalada” pela vertigem dos dias que me cortava a respiração, me prendia a Alma, e me amar-rava a dias automatizados… Sem dar conta disso, havia apagado a “luz” interior para me aguentar meses e meses consecutivos sem permitir que o meu “eu” se fizesse ouvir. Calei-o com uma “mordaça” e fechei-o no escuro para não o escutar e muito menos sentir aquilo que ele me tentava fazer recordar.
Revi-me em múltiplos sonhos que fui adiando como adiava o Tempo que queria para mim..

Fervilhava neste furação de constatações que me entorpeciam a mente, interrogando-me se haveria outras formas de estar e de viver a Vida com mais qualidade, com Tempo para desfrutar do que realmente é importante!
Foi neste preciso momento que os meus olhos se cruzaram com uma pequena palavra que intitulava um livro discreto, que parecia “piscar-me” a lombada para ir ter com ele… A palavra era precisamente o que eu procurava desesperadamente: SLOW! Devagar…
Peguei no pequeno livro de autor desconhecido e comecei a ler o prefácio…
Dei comigo a desejar ir a correr para casa para o ler numa só noite, e assim o fiz! Ou quase… 🙂 Demorei dois dias. E a minha vida começou a mudar… lentamente, mas começou e continua a mudar para me-lhor.

Vivemos numa época frenética, onde muitas vezes se sente a Vida a passar ao lado. Hoje, estamos cercados de tecnologia que nos permite fazer tudo muito mais depressa, porque nunca há tempo suficiente para o que temos previsto fazer. Seja no trabalho, em casa, nos poucos tempos-livres, a cozinhar, em todas as áreas da nossa vida.
Ora, tanta tecnologia que nos retira muitas tarefas monótonas e que nos permite ter mais tempo para coisas mais importantes e preciosas na Vida e parece que continuamos a sentir-nos esmagados com tantas tarefas, demasiadas obrigações marcadas nos dias que voam pelo calendário fora e nos fazem esquecer muitas vezes do mais importante: a qualidade na forma como esse Tempo é vivido.

Será que é mesmo possível, ou ate desejável, abrandar?…
A resposta é… Sim! É possível! Existe uma outra forma de Estar e Ser, uma filosofia de vida que está a tornar-se num grande movimento em todo o Mundo, com milhões de pessoas e até mesmo empresas e organismos públicos a aderir a esta nova forma de viver a Vida: abrandar o ritmo frenético em que vivemos e passar a desfrutar do chamado Tempo Justo. Falo-vos do Movimento Slow.

O objectivo da Slow Way é o de, nas próximas edições, dar a conhecer este movimento, explicar o que ele pretende, como está a evoluir, quais os principais obstáculos que enfrenta, porque está a ser determinante na qualidade de vida de tantas pessoas e instituições em todo o Mundo e porque tem tanto para nos oferecer.

Lembre-se: uma vida vivida à pressa pode tornar-se superficial. Tudo aquilo que nos une e torna a vida digna de ser vivida – a comunidade, a família, os amigos – cede perante aquilo que nunca nos chega: o tempo.

Alexandra Sampaio Pássaro
Slow Way
info.slowway@gmail.com

Ficha Técnica

Director: Miguel Ferro Meneses

Redacção: Ana Penim; André Ribeirinho; Carmo Miranda Machado; Conceição Xavier; Diogo Freire de Andrade; Miguel Soares; Paulo Andrade; João Bernardino; João Catalão; José Teles Baltazar; Pedro Gaspar; Rita de Carvalho; Sara Andrade; Sónia Ferreira

Fotografia: Miguel Ferro Meneses

Direcção Comercial: Bruno Oliveira (Directo - 966 556 342)

Revisora: Maria de Lurdes Meneses

Produção: Central Park

Impressão: GRAFEDISPORT Impressão e Artes Gráficas, SA

Tiragem: 13.500 Exemplares

Proprietário: Central Park Sede Social: Passeio do Levante - Lote 4 - Torre Sul 1990 -503 LISBOA

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