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André Ribeirinho é o mentor do projecto adegga.com uma plataforma que reúne amantes do vinho de todo o mundo e que é responsável pelo Summer Wine Market 2012, um evento que teve lugar  dia 16 de Junho e onde estiveram presentes 40 produtores, 270 vinhos e 700 visitantes.

http://www.adegga.com/winemarket/summer2012/

Como surge a ideia do adegga.com? Estavas à procura de um modelo de negócio e percebeste que o vinho dava um bom protagonista?
Sim, basicamente foi por aí. Na altura em que estava a trabalhar no portal Sapo, comecei à procura  de ideias de coisas que gostaria de fazer no futuro, através da leitura do livro “The Long Taile”, que explica como é que a internet mudou a indústria da música e dos filmes. Achei que era interessante pensar noutras indústrias que pudessem ser tocadas pelo mesmo modelo e lembrei-me do vinho onde sabia que existia muita paixão e, se há paixão, as pessoas gastam dinheiro e foi por aí que tudo começou.

Fala-nos sobre isso.
Começou como uma rede social onde cada pessoa se podia inscrever e deixar a sua opinião sobre um vinho. Hoje em dia, é uma plataforma que permite dar a descobrir novos vinhos aos consumidores. Por um lado, temos consumidores que ajudam outros consumidores a descobrirem novos vinhos, por outro, nós próprios fomentamos essa descoberta ao organizar eventos e ao fazer algumas vendas pontuais de vinhos. Hoje, o adegga não é só um portal com informação é, também, um mercado de vinhos, um sítio que organiza eventos. Na prática quem consome vinhos quer descobrir marcas interessantes, comprar novos vinhos, falar com os produtores. A nossa função é essa, já que estamos tão próximos do mundo do vinho, fazer com que chegue próximo dos consumidores.

E, fisicamente, através do Wine Market…
O vinho é um produto que não é digitalizável. Podemos ter a informação que quisermos online, mas, em última análise, temos que o provar. A relação humana funciona muito melhor cara a cara do que digitalmente. O vinho tem essa vantagem de te obrigar a encontrar com as pessoas.

Como tem sido a tua experiência pelo mundo ao levares o adegga lá fora? Que descobertas tens feito?
Uma das coisas que descobri é que o mundo do vinho não é tão global como parece, porque, na prática, os países produtores de vinho consomem vinho do próprio país.
Se estiver em Portugal, é muito raro consumir um vinho espanhol. Uma das coisas que acabei por descobrir foi essa forte componente local. Ao mesmo tempo o que as pessoas querem é descobrir novos vinhos. A plataforma online permite a pessoas que estão, por exemplo, nos Estados Unidos, que descubram o que os portugueses pensam dos nossos vinhos. Começa a haver esse intercâmbio onde, pessoas do outro lado do mundo, procuram novos vinhos, novos mercados e que antigamente iam encontrar essa informação nas revistas e jornais. Hoje vão ao online procurar a opinião das pessoas que consomem esses vinhos. O ano passado tive a oportunidade de fazer visitas a algumas das mais importantes regiões de vinho do mundo e o objectivo era mesmo perceber, localmente, como funcionava o mercado de vinho. Não houve uma única região onde o mercado funcionasse da mesma forma. A única coisa que é igual é a existência de diferentes segmentos de consumidores. Uns que querem apenas uma bebida para o dia-a-dia, outros que gostam de ter um vinho especial para um jantar especial e, depois, temos os “malucos” por vinho que querem os anos mais antigos, etc..

Como é que Portugal é visto lá fora?
Portugal tem muito boa imagem. Quando as pessoas já ouviram falar de Portugal é sempre pela positiva e quem conhece vinhos acha que os portugueses estão entre os melhores do mundo. O problema é que o  mercado não responde assim tão directamente à questão da imagem. Tens mercados onde há muita gente a querer comprar vinho português, mas, simplesmente, não há distribuição suficiente. Se estás, por exemplo, no mercado dos Estados Unidos, estás a competir com o Chile, com a Argentina, com a França, com a Itália, que são países que têm orçamentos de marketing muito mais fortes. Têm presenças nas prateleiras dos supermercados, que é o sítio onde as pessoas habitualmente compram vinho. Ao mesmo tempo é super interessante ver que nos restaurantes de topo, nas garrafeiras de topo, temos uma presença muito mais forte. Portanto, Portugal está mais associado a vinho de qualidade do que a vinho de supermercado o que, por um lado, é bom.

Então acaba por ser coerente com a nossa escala? Porque não temos a possibilidade de exportar assim tanto ou temos?
Pessoalmente acho que a nossa luta deve ser na qualidade e não na quantidade. O problema é que para a maior parte das pessoas que definem estratégias para o vinho existe um medo de apostar em dois ou três caminhos. Por isso é muito mais fácil olhar para um modelo de sucesso, de outro país, e tentar aplicá-lo do que pensar num modelo alternativo. Sou, claramente, da opinião de que Portugal devia apostar num país, como se diz no mundo do vinho, “boutique” que é com pouca produção, muita qualidade, com regiões muito bem definidas, com vinhos com carácter…

Com um bom marketing por trás…
Sim, como é o exemplo dos Douro Boys que reuniram cinco produtores do Douro e que têm uma visibilidade, lá fora, que o próprio vinho português, às vezes, não tem.

Quem pode incentivar e estimular isso?
Com as redes sociais as Best Practices acabam por ser trocadas muito mais rapidamente. As pessoas percebem que não podem tentar todos os segmentos, todos os mercados, conseguindo definir estratégias mais certas. Mas, em última análise, vai ter que partir sempre dos produtores. A verdade é que ainda uma grande percentagem dos produtores está mais preocupada em fazer o vinho do que em vendê-lo ou em criar um marketing e, depois, é muito complicado convencê-los a aderirem a novas ideias e a estratégias diferentes daquelas que eles conhecem. Mas, ao mesmo tempo, essa mudança está a acontecer aos poucos.
Temos o exemplo de projectos privados, bem organizados, muito orientados ao mercado e que funcionam melhor. Basta olhar para a marca Mateus Rosé, que é o vinho português mais vendido no mundo, que foi sempre desenhado para o mercado, que vende muito, que é do agrado dos consumidores e está pensado como produto para o mercado. Está desenhado com uma estratégia que vai sendo adaptada ao mercado. Nós, como país, não conseguimos ter a dinâmica para fazer isso. As instituições não têm essa capacidade.

Fala-nos sobre o sucesso do vosso Wine Market.
Uma das coisas que têm acontecido na indústria do vinho é que, nos últimos dez anos, o interesse do público pelo vinho cresceu exponencialmente, mas a maior parte dos eventos não acompanharam esse crescimento. São quase todos desenhados para a indústria e não para o consumidor. Então, ao criar um evento que está virado para o consumidor e que faz com que esse lado romântico do vinho, esse lado de conhecer os produtores, de provar o vinho e com a possibilidade de comprar o vinho faz com que o evento seja um sucesso. E, ao fim de três edições, acaba por passar de pessoa em pessoa que fica fascinada pela possibilidade de conhecer um enólogo famoso, de provar um vinho especial.

Quantas pessoas tiveram no último evento?
Tivemos 850 pessoas que foram provar e depois comprar vinho, muitas vezes acima da zona de conforto porque, como acabaram de provar um vinho de que gostam, tinham possibilidade de o comprar logo. A direcção é directa. Vendemos cerca de 2000 garrafas em sete horas. Um valor médio bastante acima do valor médio de mercado.

Foi interessante ver bastantes jovens, com pouca capacidade financeira, a fazer o seu investimento em vinhos…
Normalmente os jovens estão mais associados a bebidas alcoólicas, pelo álcool em si, e não pelo prazer de beber uma determinada bebida. E nós somos um país que tem tradição no vinho portanto é super fácil convencer um jovem a beber pelo simples prazer de beber vinho.  A questão é que nada, até agora, estava desenhado para tornar a experiência, para um jovem, interessante. O mundo do vinho é super tradicional, muito virado para os supostos gurus que nos vão dizendo o que vamos beber, mas a verdade é que as gerações mais novas não pensam assim. Eles gostam de receber sugestões dos amigos, de ir a eventos e partilhar essa experiência no facebook, de adquirir conhecimento. É uma das grandes diferenças do mundo do vinho anterior e do deste novo mundo. Antigamente falava-se em educação do vinho que era ficar sentado numa sala a receber duas horas de conhecimento. Hoje o conhecimento vem da experiência. Do provar o vinho com um produtor que lhe explica uma casta, de ir à loja comprar uma garrafa que custa um determinado preço porque tem uma determinada idade.

Saindo um pouco do vinho, como vês a nossa sociedade?
Ainda estamos muito ligados ao nosso passado como país. Fomos educados por famílias que viveram tempos muito mais complicados do que aqueles que vivemos hoje em dia. Os nossos pais viveram debaixo de uma ditadura. Por um lado temos a abertura e a atitude para encarar as coisas com uma postura mais positiva e de tentar fazer coisas novas, mas, por outro, estamos agarrados a um passado, por vezes de medo, de não querer arriscar. Se, por um lado, temos essa abertura e se nos divertimos, por outro estamos presos a hábitos e as questões socias super enraizados na sociedade. Obviamente que quem tem hoje 15 anos irá estar cada vez mais desligado desse passado e eu acho isso muito importante.

Achas que somos realmente empreendedores? Queremos ser realmente empreendedores? Ou o medo supera o risco de não termos ordenado fixo, de ficarmos sem os salários, sem a casa, sem o carro…
Costumo dizer que, se oferecêssemos um ordenado a cada português, todos eles seriam empreendedores. A questão que preocupa a maior parte das pessoas é a questão do ordenado, da casa, do carro e dessas coisas todas. A maior parte das pessoas vê o empreendedorismo como um “lifestyle” e não como uma necessidade de arriscar, de querer fazer, de querer criar algo diferente, de criar valor nas mais diversas indústrias. A verdade é que existe um certo número de pessoas que olha para o mercado e que tenta criar um ideia e não tem medo de arriscar indo à luta. Mas a maior parte das pessoas que conheço, que dizem que gostariam de criar o seu próprio negócio, estão mais ligadas a essa liberdade, a esse “lifestyle” do que a perceber o que é um negócio e como é que isso pode mudar o mercado. Mais uma vez é uma coisa que irá acabar por mudar, de geração em geração. Mesmo que hoje as pessoas que estão a sair de uma universidade não pensem como as de há anos atrás e não queiram entrar na maior empresa que conseguirem para poderem, dali a trinta anos, ainda, lá estarem, ainda não chegámos ao ponto das pessoas saírem das universidades e pensarem: “Vou ser empreendedor.” Por outro lado é difícil fazer isso quando o “ecossistema” de investimento não existe. Costumamos dizer que os americanos são muito mais empreendedores, pois claro… porque a questão financeira acaba por ser essencial. Arriscar, quase toda a gente consegue. Inovar… os portugueses são muito bons nisso. Conseguem encontrar soluções absolutamente incríveis. A questão depois é ir para o mercado e o nosso tem uma escala um pouco ingrata. Se eu começar uma empresa em São Francisco, tenho à minha disposição 40 milhões de pessoas de mercado potencial. Se estiver em Portugal, tenho 10 milhões de habitantes. Não é mercado potencial e isso levanta outros problemas, também.

A escala representou algum problema para o adegga? O adegga foi pensado à escala internacional?
Como disse há pouco, o vinho, apesar de ser global, é super local. Como empresa só funciona, em cada mercado, se for individual.  Por exemplo: fazer um site de vinhos reserva, que funciona em qualquer sítio do mundo, não funciona. Eu estou em Portugal, trabalho com os produtores portugueses e, se eu for exactamente com o mesmo modelo de negócio, para os EUA, vou ter que trabalhar com os produtores que lá estão. Portanto, é um modelo que não escala facilmente.

Faz sentido, então, é que existam vários adegga, um em Espanha, outro em França, outro em Itália, etc..
Claramente. E é por aí que vamos agora. Estamos a criar o adegga Portugal, vamos criar o adegga UK. Exactamente para trabalharmos o mercado com as marcas que estão nesse país. É mais interessante, para nós, termos parcerias locais do que licenciar a marca. Temos que estar no mercado com os vinhos que estão no mercado. E, se calhar, fazer os winemarket´s que fazemos em Madrid ou em Londres, mas essencialmente com os vinhos de lá.

Este próximo, o Summer Wine Market 2012 é o primeiro que fazem de Verão. O que vai ter de diferente dos outros, além de decorrer no Verão?
Vamos ter sushi pela primeira vez, apesar de nunca termos tido nenhum tipo de casamento dos vinhos com a comida.  Este vai ser o primeiro em que vamos fazer isso. Decidimos escolher o sushi para fazer o pairing com os vinhos brancos, com os rosés e espumantes que vão estar no evento. Sendo um evento de Verão e num Sábado em que muita gente irá à praia, fizemos uma mudança de hora, de forma a que possam ir à praia e, depois, ao evento que começa pelas 17h e termina pelas 23h.

Como vês o país, as pessoas, a  crise e afins?
Acho que a crise é sempre uma oportunidade de repensar as coisas. Se não aproveitarmos a crise para fazer isso, estamos a desperdiçar esta oportunidade. A falta de dinheiro, a falta de capacidade do mercado em dar respostas é uma oportunidade de se repensar as coisas. Não sei se isso está a acontecer. Até porque é difícil mudar os nossos hábitos, mas temos coisas que são muito boas e para as quais devemos olhar numa perspectiva de futuro. Temos recursos naturais, pessoas com um nível de educação bastante alto, uma geografia muito interessante, uma visibilidade lá fora. Se no estrangeiro eu disser que sou português, a probabilidade de eu ser bem recebido é altíssima. Isso é muito bom a nível das relações internacionais. É muito positivo e não acontece com muitos outros países. Por outro lado, temos um interior que tem recursos naturais super bons, mas que depois não são bem utilizados porque as políticas tendem a não incentivar as pessoas a ficarem por lá. Aparentemente parece ser muito mais interessante viver na cidade, mas pode não ser. Há muitas pessoas que, se calhar, preferiam viver no interior, mas, se as condições financeiras, de serviços, de qualidade de vida não existirem, as pessoas não vão.

Não tens televisão em casa. O que achas da televisão generalista portuguesa?
Acho que a televisão tinha muito a ganhar se fosse uma televisão que fizesse, de facto, um serviço de informação. Na minha opinião existem serviços de informação que estão camuflados como serviços de entretenimento. As duas coisas juntas são perigosas. E, de facto, há maus serviços de informação. Para ver um serviço de informação prefiro ser eu a consultar as fontes de informação e a ver pontos de vista diferentes e, nesse caso, a internet funciona muito melhor do que a televisão. O horário nobre tem uma mistura de entretenimento com notícias irrelevantes e que chamam a atenção como notícias  muito relevantes, mas que são menos tratadas porque existe uma corrida de audiências. No outro dia estava a ler que os canais de documentários do cabo  têm audiências enormes. E isso é um sinal de que as pessoas querem, de facto, informação de qualidade. E que querem programas focados em determinados temas.

Portanto a televisão não dá aquilo que as pessoas querem, como alguns gurus da televisão defendem?
Acho o argumento que “as televisões dão aquilo que as pessoas querem” é muito perigoso.  Se fosse assim não vivíamos numa sociedade, mas numa confusão, numa sociedade caótica e não civilizada. A verdade é que cada uma das instituições tem uma responsabilidade pela sociedade, sejam empresas públicas ou privadas e a televisão desresponsabiliza-se disso dizendo que “é aquilo que as pessoas querem ver”. Isso causa o tipo de audiências, supostamente verdadeiras, de pessoas que querem ver os assaltos ou os acidentes, no fundo, as notícias negativas. Isso, para mim, não faz muito sentido porque a televisão tem a responsabilidade de informar as pessoas, de fazê-las pensar, etc.. A internet tem a vantagem de as pessoas poderem escolher aquilo que querem ver. Seja o positivo ou o negativo.

Que conselhos dás a quem queira ser empreendedor?
Acho que o mais importante de tudo é estar sempre disposto a aprender, a viajar, a ler, a ouvir… Ser empreendedor não é uma coisa estática. É preciso viver essa actividade porque vais estar constantemente em mudança. Uma das coisas que mais me dá prazer e que me torna melhor empreendedor é exactamente essa possibilidade que tenho de viajar, todos os meses, e de perceber que outros mercados trabalham de forma diferente. E, muitas vezes, ver que áreas diferentes resolvem problemas que, na minha área, ainda não estão resolvidos. O conselho mais importante que posso dar é: Viver aquilo que estamos a fazer, ir à procura de soluções para os problemas e estar constantemente a arranjar soluções e a criar valor a quem é nosso cliente. É preciso estar sempre a aprender.

Encontrar soluções é o combustível para desenvolver um projecto?
Sim e num mundo global, quando temos uma ideia, de certeza que noutro sítio já existe alguém com a mesma ideia e o que conta é a capacidade de a inovar e de a adaptar ao mercado. Porque ideias muita gente tem. Implementá-las é muito mais complicado do que parece. Estar sempre atento, tentar perceber o mercado e criar valor é o mais importante de tudo.

Ficha Técnica

Director: Miguel Ferro Meneses

Redacção: Ana Penim; André Ribeirinho; Carmo Miranda Machado; Conceição Xavier; Diogo Freire de Andrade; Miguel Soares; Paulo Andrade; João Bernardino; João Catalão; José Teles Baltazar; Pedro Gaspar; Rita de Carvalho; Sara Andrade; Sónia Ferreira

Fotografia: Miguel Ferro Meneses

Direcção Comercial: Bruno Oliveira (Directo - 966 556 342)

Revisora: Maria de Lurdes Meneses

Produção: Central Park

Impressão: GRAFEDISPORT Impressão e Artes Gráficas, SA

Tiragem: 13.500 Exemplares

Proprietário: Central Park Sede Social: Passeio do Levante - Lote 4 - Torre Sul 1990 -503 LISBOA

Nr. de Registo ICS: 123 919

Depósito Legal: nº. 190972/03

Email: geral@noticiasdoparque.com