autores_pauloandrade_round_100x100

De 6 a 15 de Maio, o Navio «Creoula« vai estar atracado e aberto ao público, na Ponte Cais da Marina do PN, visita que se insere nas comemorações do seu 75º Aniversário. Fica a conversa com o Capitão-de-Fragata, Cornélio da Silva, Comandante desta embarcação histórica que preserva a alma dos verdadeiros marinheiros portugueses.

 

Qual é a missão do Creoula?
A missão essencial do Creoula é levar os cidadãos portugueses ao mar. Diz-se que Portugal é um povo de marinheiros, mas não é verdade. Não temos uma cultura, propriamente, de ir para o mar. Gostamos de ir à praia ou à esplanada junto à praia, mas não é um desígnio dos portugueses, enquanto pessoas. Pode ser do País, mas das pessoas, para já, ainda não é. O Creoula está ao serviço de Portugal, operado pela Marinha, para levar os cidadãos portugueses a conhecer melhor o mar e terem consciência da importância estratégica que ele confere a Portugal. Em todas as vertentes: social; económica; ambiental; transportes; pescas; desportiva e na componente de segurança e defesa. Quem embarca vai ter uma experiência, além do treino de vela, vai ter um contacto com o mundo do mar percebendo que ele é o que une e não aquilo que separa os países. Ter  a consciência da quantidade de navios que entram nos nossos portos e que circulam ao longo da nossa costa. Ter consciência da poluição marítima que existe, da vertente cultural que o Mar dá ao País. O Creoula não é uma arma de recrutamento da Marinha. O nosso interesse é que as pessoas, ao terem contacto com o mar, possam, depois, escolher uma profissão vocacionada ao mar (ou não), e que tenham uma perspectiva, nas suas vidas enquanto futuros decisores, a percepção da importância do mar para Portugal. Termos um país com consciência marítima. Que os nossos cidadãos, de uma forma geral, directamente ou indirectamente, percebam a importância que o mar tem para Portugal. Quando forem redigir uma lei como juristas ou como arquitectos estiverem a urbanizar junto à costa, enfim, acho que quase tudo em Portugal acaba por ter influência no mar. É importante que tenham consciência do bem ou do mal que as pessoas podem provocar com as suas decisões. Conhecer a alavanca que o mar pode representar para o país e que não deve ser nem desperdiçada e muito menos estragada. É essa a missão do Creoula.

O que sente quando tem essa tripulação a bordo? Como sente que eles reagem?
A nossa experiência é 99% positiva. Temos o cuidado de perceber o que as instituições pretendem quando embarcam. Umas estão  mais preocupadas em que os alunos tenham contacto com a componente ambiental outras com a vertente cultural, etc.. A componente de saber estar no mar está sempre presente. No final nunca encontrei alguém que desembarque igual à forma como embarcou. As pessoas sofrem sempre uma transformação. E essa é uma segunda derivada que julgo que é muito importante para a nossa sociedade. As pessoas entendam aquilo que é a disciplina positiva. O Creoula é um navio militar e quando as pessoas embarcam explicam-me as regras, mas estas regras vão-se impondo por elas próprias, sem serem demasiado austeras. As pessoas vão percebendo a razão da existência delas. Perceber que para conseguirmos funcionar temos que puxar o cabo no mesmo sentido e ao mesmo tempo que os outros. Ninguém consegue içar uma vela sozinho e muito menos com uma pessoa a puxar no sentido contrário. Ensinamos as pessoas a trabalhar em grupo. De forma disciplinada e coerente e que é importante que as coisas sejam feitas a tempo e horas. Entendem, também, que há problemas que têm que ser contornados, que não vale a pena fazer força contra um mar violento. Que temos que saber esperar, saber entendê-lo para o vencer. São lições que o tempo vai permitindo às pessoas ganhar. Não gostamos de sair apenas por um dia. Só a partir do terceiro dia as pessoas começam a tirar proveito do Creoula e o rendimento a vir ao de cima. Começam a perceber porque razão estão a puxar aquele cabo, porque têm que entrar de 4 em 4 horas, porque têm que ir fazer pão, ou se vão fazer limpezas, para o leme ou para a navegação. Se todos executarem bem as suas tarefas, as coisas correm de uma forma fantástica. É um sítio onde se aprende muito bem a trabalhar em equipa. No final as pessoas ficam com um testemunho que foi uma boa lição de vida embarcar, conhecer outras pessoas, outros ambientes, conhecer os militares. Entendem a relação hierárquica de uma forma positiva.

É uma lição de vida? Uma Escola de vida?
Temos casos de empresas que nos pediram para serem colocadas num ambiente que provoque a interacção entre pessoas e especialmente entre diferentes escalões. Naturalmente que a vida em terra é diferente, a vida empresarial é diferente. O tempo a bordo do Creoula passa de uma maneira totalmente diferente. Passa-se a ter tempo para pensar, meditar, ler, conversar, conhecer, trabalhar. Basicamente é como um retiro. As pessoas são retiradas do frenesim da cidade, do nunca ter tempo para nada e, de repente, estão num ambiente onde há muita coisa para fazer, mas de um modo regrado e ritmado. As pessoas podem estar a descascar batatas, mas ao mesmo tempo podem estar a pensar na vida ou a falar com outras pessoas e ter a capacidade de desligar. Afastarmo-nos da costa o suficiente para a cura tecnológica, ou seja, para desligarem os blackberrys, telemóveis ,Ipads, e-mails… Então para os adolescentes é fundamental para que eles tenham capacidade de retirar os olhos do ecrã e passarem a olhar e a apreciar aquilo que os rodeia. O Creoula é muito mais do que andar de barco. Permite coisas engraçadas como os pais falarem com os filhos. Houve pessoas que me confessaram que conviveram mais com o filho em três dias, do que durante meses em que se “cruzaram” com os filhos em casa. O Creoula é dos 14 aos 140. Há uma oportunidade de convivência intergeracional como disse a Teresa Ricou que embarcou connosco. Na área do enquadramento social temos um papel muito positivo. Esta disciplina consentida faz com que as pessoas que trabalham em profissões com cumprimento de horários menos exigentes cheguem ali e percebam que, se forem organizadas, se tiverem planeamento, conseguem. No caso do Chapitô era necessário que os alunos, para serem bons artistas, tivessem a noção da vantagem da disciplina. Que se é necessário estar às 04h00 da manhã é mesmo para estar a essa hora. Mesmo se estiver enjoado ou com fome ou com frio, porque precisa de ser rendido. As pessoas só percebem isso quando os ponteiros do relógio estão colados ao mostrador. Sentir essa necessidade de que a missão seja bem sucedida.
É um navio com uma perspectiva, com uma gama de frequências muito vasta. É uma escola para a vida. É um navio bonito, romântico, normalmente navegamos no Verão, com bom tempo. Também há tempo para se agarrar numa viola, passar algum tempo no convés, projectamos filmes nas velas, fazemos jogos, mas especialmente a disponibilidade de tempo, a falta daquela sensação de que o dia está a chegar ao fim e ainda nos falta fazer uma série de coisas, ali não existe. Porque as pessoas estão lá dentro, confortáveis, não saem dali e, embora sabendo que podem estar cansadas, desfrutam mais do tempo. O tempo para elas está a render muito.

O mar torna as pessoas mais rijas…
O mar não é um elemento brando. É um desafio permanente. Obriga-nos a impor a nós próprios um pouco de coragem e de vontade. O mar provoca uma sensação estranha de desequilíbrios que precisam de ser vencidos. Muitas vezes é este desafio vencido que nos traz a coragem. Estarem sujeitos a um desafio e depois ganhá-lo. Dizerem: Estava cheio de frio, cheio de fome ou enjoado, a fazer um quarto da meia noite às 04h00 e tive que o cumprir. Vem-se para casa  com um sensação de ter conseguido vencer algo a que nunca se tinha estado sujeito e que representa uma lição para a vida.

Se todos os portugueses passassem pelo Creoula teríamos um Portugal melhor? Podemos então dizer que nos falta um pouco mais de mar dentro de nós?
Se as pessoas não se esquecessem do que lá se passa e se aplicassem esses princípios, diria que sim.

Porque estamos mais afastados do mar?
A vida do mar é uma vida difícil. Ser pescador é uma vida dura. E, pessoalmente, na minha percepção, nos últimos dias habituamo-nos a um certo conforto onde conseguimos dinheiro de formas mais fáceis e fisicamente menos exigentes. Portanto as pessoas foram-se encostando, passo a expressão, a situações que eram mais favoráveis. Não conheço alguém que diga que a vida no mar é fácil. Todas as profissões ligadas ao mar são duras. Mas são profissões boas, potencialmente geram riqueza suficiente para se viver. Porque virámos as costas ao mar? Porque apareceram alternativas mais fáceis, acho que é a reposta.

Como mudar essa tendência?
Acho que há aqui uma questão fundamental que é: a maritimização da nossa educação. Somos um país claramente Atlântico, a nossa vocação tem que ser o mar. Não é que seja mau contar ovelhas, mas temos é que saber contar peixes. Dar uma perspectiva da dimensão marítima nas nossas escolas. Podemos continuar a olhar para os rios e para as montanhas com carinho, mas temos que abrir os livros das nossas escolas e, por exemplo, os problemas de matemática serem sobre o mar. Para as crianças ganharem noção do que lá existe. Enfim, o mar devia ser campo de aplicação da nossa educação. Mas não é. Eu vejo pelos livros dos meus filhos: tijolos, carneiros, quilos de terra, etc..
Julgo que se está a tentar mudar isso, com casos como o Kit do Mar. Se fizermos um esforço de impregnar as crianças com o gosto pelo mar, elas vão passar a acarinhar e a perseguir isso. Por exemplo, na Bretanha vi um ATL de Construção Naval que ensinava as crianças a construírem barcos. Um reformado, quase que parecia o Geppeto do Pinóquio, cabelo branco, óculos na ponta do nariz, a ensiná-los a transferir do papel para a madeira, a cortar a madeira, a fazer as cavernas, a colar, etc.. Para terem um barco onde podem andar. Em Portugal temos condições excepcionais para fazer isso.

O que falta então?
Falta iniciativa. Falta as pessoas deixarem de querer só a playstation e passarem a ir para o estaleiro. Admito que tenham que existir algumas condições para fazer isso, mas temos que deixar de estar tão cercados por redes e pôr os mais novos em actividades ao ar livre e junto de água. Não é difícil, não é caro. É preciso que haja alguma motivação para que isso exista. Para que as pessoas percebam que um miúdo que saiba funcionar com um formão pode muito bem, no futuro, vir a ter esta profissão. Pode vir a ser um excelente marceneiro, pode ser um construtor naval e saber daquela arte. São nichos de mercado que se podem desenvolver em Portugal. Deixarmos um pouco o consumismo da electrónica e pôr as crianças a fazerem coisas que são úteis. Construir um barco, metê-lo dentro de água, saltarem lá para dentro e andar um pouco à vela ou a remos é algo que certamente não vão esquecer.
Não é barato ter um barco em Portugal, mas como vejo na Bretanha, as pessoas abdicam de ter um carro caro para terem um barquito. As pessoas não precisam de ter o topo de gama. Em Portugal vivemos muito o oito e o oitenta. Se temos uma prancha de surf tem que ser a mais cara, se temos uma bicicleta tem que ser de carbono com rodas especiais, etc.. Não conseguimos ter uma bicicleta normal, de pasteleiro, por exemplo. Com o barco é exactamente a mesma coisa. Podemos ter um barco melhor ou pior, mas o importante é podermos ir para a água. Levar uma bucha e uma cerveja e irmos dar uma volta, seja no mar da palha seja em Sesimbra. Gozar, usufruir, desfrutar deste privilégio que é viver neste país. Somos um povo abençoado com o clima que temos, com as características da nossa terra, tão recortada, mas depois queixamo-nos da nortada no Verão. Estamos a queixar-nos disso? Então na Noruega, na Bretanha? Se assim fosse eles não fariam nada. Mas o que é certo é que fazem. Deixemo-nos de pieguices…

Desvalorizamos o que temos? Não gratificamos o que temos?
Completamente. Desvalorizamos e nem prestamos atenção nenhuma. A maritimização da nossa educação é o início. Se nas escolas e em casa dermos aos nossos filhos coisas interessantes a fazer e que sejam vocacionadas com o mar, eles vão naturalmente atrás delas. Se os enchermos de electrónica e os deixarmos em frente a uma televisão eles nunca irão, por si só, ser pessoas que gostem de mar. Tem que nascer nas escolas e em casa.

E politicamente, por exemplo, a estratégia da Economia do Mar?
Podemos escrever tudo aquilo que quisermos, mas demora tudo muito tempo a concretizar. Não podemos escrever que precisamos de ter portos e eles não se fazem com uma varinha de condão. Tudo o que é estratégia exige um planeamento de longo prazo. Tudo isto obedece a décadas de esforço. E tem que ser um esforço coerente. Se os nossos dirigentes entendem que a estratégia do nosso país está direccionada num certo sentido, esse planeamento tem que ser feito e concretizado esse esforço, ao longo do tempo. Acho que estamos no bom sentido, agora falta esperar, ir investindo. O mercado não nasce de repente. É tudo função de esforço continuado.

O Creoula está ao serviço dos portugueses…
O Creoula, para Portugal, representa a concretização real. Que existe, que está cá ao dispor das instituições, dos cidadãos e está nas mãos deles utilizá-lo da melhor forma. Todos os anos fazemos um planeamento e recebemos candidaturas até Novembro. Todas as instituições que sentirem que o Creoula poderá constituir um bom investimento para a empresa, ou para a universidade ou para a escola, que nos façam uma proposta. Temos uma página com essa informação toda. Estamos sempre abertos a tentar encontrar soluções ao embarque do Creoula. Nem tudo se apropria ao Creoula. Não é um navio de turismo, não fazemos passeios.  Se forem coisas que estejam dentro do nosso espectro de missão, temos todo o gosto em tentar encaixar dentro do nosso planeamento anual.
O nosso trabalho é alertar para as várias vertentes que o mar confere, para que as pessoas as percebam e para que se quiserem enveredar por determinadas matérias, que o façam e de forma consciente. Gostaria muito que existissem mais projectos em Portugal lançados pelas universidades.
Como diz o professor Ferno Rodriguez, que embarca connosco há muito tempo: “O Creoula é uma arma de instrução massiva.” E é verdade, é conhecimento e aventura num navio de sonho.

Ficha Técnica

Director: Miguel Ferro Meneses

Redacção: Ana Penim; André Ribeirinho; Carmo Miranda Machado; Conceição Xavier; Diogo Freire de Andrade; Miguel Soares; Paulo Andrade; João Bernardino; João Catalão; José Teles Baltazar; Pedro Gaspar; Rita de Carvalho; Sara Andrade; Sónia Ferreira

Fotografia: Miguel Ferro Meneses

Direcção Comercial: Bruno Oliveira (Directo - 966 556 342)

Revisora: Maria de Lurdes Meneses

Produção: Central Park

Impressão: GRAFEDISPORT Impressão e Artes Gráficas, SA

Tiragem: 13.500 Exemplares

Proprietário: Central Park Sede Social: Passeio do Levante - Lote 4 - Torre Sul 1990 -503 LISBOA

Nr. de Registo ICS: 123 919

Depósito Legal: nº. 190972/03

Email: geral@noticiasdoparque.com