Mobilidade Suave

By 14 Dezembro, 2011Local

Dando continuidade a esta rubrica na procura do incentivo para esta comunidade usar mais a mobilidade suave, falámos com João Bernardino que usa a bicicleta e os meios de transporte para se deslocar para o emprego, em Lisboa, demorando, em média, 28 minutos.

Como e porquê surgiu a vontade de usar a bicicleta como meio de transporte, aqui, no PN?
Há alguns anos, quando ainda estudava e apanhava o metro na estação do Oriente, até onde demorava 20 minutos a pé desde casa e os autocarros eram pouco frequentes, ocorreu-me passar a levar a bicicleta e deixá-la perto da estação. Como estacioná-la na rua é bastante perigoso – os relatos de roubos de bicicleta, naquela zona, eram e continuam a ser talvez os mais frequentes em toda a cidade de Lisboa – deixava-a dentro do parque de estacionamento da Gare, onde era tolerada pela segurança (ao contrário do C. Vasco da Gama). Quando comecei a trabalhar, passei a usar o comboio a partir de Moscavide (continuo a morar no lado Norte) e estive anos sem pegar na bicicleta. Até que se juntaram um conjunto de três factores que me levaram a considerar experimentar ir de bicicleta para o trabalho pela primeira vez.
A primeira foi a construção das ciclovias, que oferecem uma percepção de segurança e conforto. Não foi suficiente para tomar a iniciativa, dado que apesar de tudo só cobriam parte do percurso até ao trabalho (que fica na Av. Marquês de Tomar, entre a Av. da República e a Gulbenkian) e pensava eu que ele era demasiado longo e difícil.
A segunda foi o facto de ter sido desafiado por uns amigos para ir passear de bicicleta até Belém (a bicicleta chiava da falta de andamento). Fiquei com noção de que era possível andar de bicicleta em Lisboa. Nessa semana tive que me deslocar, em trabalho, à antiga FIL, que era basicamente o mesmo percurso, e decidi levar a bicicleta.
Finalmente, já entusiasmado com a possibilidade de andar mais de bicicleta, verifiquei que é permitido transportar a bicicleta no comboio, e, no dia seguinte, decidi experimentar. Levei a bicicleta de comboio na ida (mais a subir) e regressei o percurso inteiro a pedalar. Percebi que era mais fácil do que parecia. Nunca mais deixei de o fazer, todos os dias, umas vezes com a ajuda do comboio na ida, outras sem ela. Desde há um ano faço ainda um desvio adicional no percurso para ir deixar o meu filho na creche Saídos da Casca, uma opção muito mais prática do que qualquer outra. Nota-se que ele também gosta bastante da viagem, pela forma como o ouço lá atrás na cadeira a comentar a presença dos pássaros em redor e tudo o resto que vai observando!

Quanto tempo demoras a chegar ao local de trabalho?
Na ida demoro uns 28 minutos, se apanhar o comboio, ou mais 8 do que isso se for o percurso inteiro de bicicleta. No regresso, mais a descer, demoro 28 minutos só a pedalar. Pode-se dizer que tenho uma condição física um pouco acima da média, por isso uma pessoa que esteja na média deveria demorar ligeiramente mais do que isto.
É interessante comparar estes tempos de viagem com os de modos alternativos. Indo de comboio faço a viagem em 40 minutos coordenando a saída de casa ou trabalho com os horários de partida. De carro, em hora de ponta, demora-se pelo menos isto, e com grande incerteza.

Relativamente aos roubos das bicicletas, no PN, que sugestões ou conselhos dás para se contornar essa questão?
Uma bicicleta roubada não é só mau pelo seu valor, mas pela carga emocional negativa que tem. Um utilizador de bicicleta, especialmente se for recente, pode ficar totalmente desmotivado a voltar a pegar numa bicicleta. É essencial proteger bem a bicicleta e para isso não basta um cadeado simples; na internet encontram-se facilmente conselhos úteis sobre as melhores formas de prender uma bicicleta. Por outro lado, num local como Lisboa em que o uso da bicicleta só agora começa a desenvolver-se, as autoridades ainda não estão sensibilizadas para o problema, que é relativamente novo. É necessário que comecem a tê-lo em conta, especialmente em pontos negros como é o caso do Vasco da Gama. Nestes casos o próprio centro comercial deveria preocupar-se com o problema, se quer manter a boa fama. Surpreende-me o facto de continuar a ouvir falar muito de roubos nesse local desde há quase 10 anos e o problema manter-se, mas é um sinal de que a cidade ainda não se habituou a proteger os ciclistas.
 
De que forma podemos melhorar as condições de modo a fomentar o uso da bicicleta no PN?
Parece-me ser muito fácil melhorar substancialmente as condições sem sequer se ter que gastar dinheiro. Penso que bastava pegar em ruas de hierarquia local e nas vias laterais das grandes avenidas (Alameda dos Oceanos e Av. D. João II) e transformá-las em Zonas 30, ou seja, zonas onde o limite de velocidade seja de 30 km/h. Em cima disso, acrescentam-se placas nos sinais verticais e marcações no chão a informar claramente que são zonas naturais para ciclistas. Os condutores de automóveis, além de moderarem a velocidade nessas zonas, passam a contar claramente com a presença de ciclistas. Os ciclistas passam a sentir que existe um local onde são bem-vindos, sentem-se seguros e começam a aparecer na estrada. Tudo isto, sem se gastar um cêntimo em ciclovias. Claro que estas e outro tipo de arranjos de infra-estrutura tornam-se importantes para ciclistas menos ousados ou para aqueles que, como eu, transportam um filho para a escola ou queiram deixar o filho ir sozinho para a escola de bicicleta. Por falar em ciclovias, é preciso profissionalizar mais quem as faz. Por exemplo, desafio quem chamou ciclovia ao caminho que se destinou a bicicletas na Alameda dos Oceanos que experimente pegar numa bicicleta de cidade ou de estrada (com pneu fino e sem amortecedores) e ande na “ciclovia”, imaginando que iria fazer aquele caminho todos os dias. Uma coisa com aquele tipo de piso desmotiva qualquer ciclista urbano e não deve ser chamada ciclovia. Para terminar, é impressionante como uma estação como a Gare do Oriente, rodeada de milhares de habitantes espalhados por um terreno transversalmente plano, não teve e continua a não ter um parque de estacionamento como deve ser para bicicletas.

9 Comments

  • Balta 46 diz:

    Coincidência, também vivo na zona Norte (junto à Igreja) e tenho escritório c/ estacionamento na Marquês de Tomar. Desloco-me num smart automático e nesta viagem gasto em média metade do tempo que o “vizinho” na sua bicicleta. Claro que com custo de combustível mas o exercício faz-se no desporto, no ginásio e na cama …

  • Anónimo diz:

    Mais uma excelente entrevista e um excelente exemplo do tema “Mobilidade Suave”. Boa escolha no nome.

    Curioso como o “Balta 46” afirma demorar em média “14 minutos” a chegar da Zona Norte ao seu “escritório com estacionamento privado” na Marques de Tomar. Ou sai de casa às 4h da manhã com os semáforos todos intermitentes e não tem problemas em exceder a velocidade sempre que pode, ou baralhou-se e quando diz que gasta metade do tempo, referia-se ao tempo despendido na última actividade por ele mencionada.

  • Diogo Dias diz:

    Olá Balta 46, é ja devo ter passado varias vezes por si de bicicleta. As vezes tenho vontade de lhe dar boleia porque uso um selim a frente onde por vezes levo o meu filho ou mulher, mas tive medo que levasse a mal. Cumprimentos e boa sorte com o seu carro dentro da cidade. Ja agora, se algum dia for ate Amesterdão, leve o seu Smart que certamente será bem recebido:)))

  • Balta 46 diz:

    e a gonperes tb, por mim não passa com certeza porque pouco páro. Quando qualquer um dos senhores ciclistas quiser testar os tempos, estou disponível para comprovar o que escrevi. Saio depois das 9h e para ser justo até dou uns minutos de avanço não consigo é meter o carro nos transportes públicos mas aproveito para ler jornais, consultar emails, ao mesmo tempo que ouço rádio. E chego ao escritório, elegante e a cheirar a lavado. Em 14 minutos dão-se grandes f**** antes do duche matinal e recomendo… 

  • João Bernardino diz:

    Caro Balta 46,

    A minha referência é de há uns anos atrás, quando fazia habitualmente um percurso semelhante de carro à hora que refere e demorava cerca de 40 minutos (sem estacionamento privado) nos dias sem incidentes. É natural que com a crise, o aumento dos combustíveis e a abertura da CRIL as coisas tenham melhorado bastante. Ainda assim 14 minutos é obra!

    Para ter uma noção real dos custos da viagem que faz de automóvel, creio que deve contabilizar não só o combustível, mas também o desgaste do seu carro e o valor do estacionamento que ocupa, além da própria amortização do carro caso o pudesse dispensar se não fizesse a viagem. No seu conjunto, verá que devem corresponder a qualquer coisa como 4 vezes o custo do combustível (se desejar ser altruísta na contabilização de custos, inclua também aqueles que causa aos outros, como a poluição atmosférica, o ruído, o congestionamento que causa, a ocupação do espaço público e o risco de acidente).

    O que não significa necessariamente que a sua escolha não seja a correta, naturalmente.

  • Anónimo diz:

    Excelente vídeo sobre o uso da bicicleta: 
    http://www.greensavers.pt/2012/01/16/bicicleta-as-varias-perspectivas-da-nova-mobilidade/
    Duvido que mude a atitude do Balta 46, mas sempre o pode visionar no caminho para o emprego, dentro do seu smart, enquanto passa um sinal “laranja escuro”, obriga um peão a saltar para trás, e fala ao telemóvel…

  • Balta 46 diz:

    O menino vá dar banho ao cão isso se o consumo de água e de shampoo não ofender os pruridos ecológicos, talvez para cidadão ver.
    Não tenho emprego, trabalho e muito, quanto ao que escreve são devaneios próprios de quem tem falta de mundanidade. Realmente a “pior raça” são os fundamentalistas seja do que gostem de fuçar para impor aos outros. Haja pachorra. 

  • All a Board diz:

    Ó Balta 46, ninguém o pára :).
    Já li comentários mais felizes do gonperes, mas o tema era conversa de caca(s).
    Para apimentar o debate, contribuo com texto de opinião sobre Bicicletas http://aesquinadorio.blogs.sapo.pt/365425.html    

  • Caro Balta 46, os seus comentários são no mínimo cómicos 🙂
    Não havia necessidade de se irritar… então? Muitas horas passadas entalado no trânsito? 
    Não se esqueça que é graças aos que optam pelos transportes colectivos, bicicleta, etc. que o Balta chega mais depressa ao trabalho no seu smart automático. Se todos pensassem como o Balta e fossem no seu enlatado individual, demorava umas 2 horas… A fila começava logo à porta de sua casa e não havia garagens privadas que chegassem… E o planeta entrava em colapso mais cedo 😉 

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Fotografia: Miguel Ferro Meneses

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