Biblioteca Académica de Lisboa

By 5 Dezembro, 2014Opinião

Artigo de opinião por: João Pedro Ruivo

Passados mais de 16 anos da Expo’ 98, o balanço da intervenção urbanística a oriente da cidade de Lisboa é francamente positivo. Sobre as ruínas de uma zona industrial decadente e insalubre ergueu-se uma nova urbe, aberta ao rio e ao mundo, que ao longo destes anos foi sendo apropriada por muitos cidadãos que aqui escolheram viver, aqui trabalham ou tiram partido das múltiplas atracções culturais e de lazer.

Nem tudo são rosas nesta história de sucesso reconhecida internacionalmente. Nos primeiros dez anos de vida, o Parque das Nações não resistiu às pressões do sector imobiliário, com a área construída a crescer exponencialmente num curto espaço de tempo. As várias dezenas de lojas e escritórios vazios são hoje efeitos perversos do crédito fácil e de decisões de investimento privado baseadas em cenários para lá de optimistas, e em cuja equação a variável crise certamente não teve lugar.

Mas o fenómeno da crise de crédito voltou mesmo em força em 2008, encerrando um ciclo de prosperidade relativa. A crise manifestou-se no Parque, desde logo na diminuição abrupta da construção de raiz. Por ocupar ficaram milhares de metros quadrados já construídos, mas também um punhado de descampados, pedaços de terra que porventura até já tiveram destino traçado e agora aguardam melhores dias.

A crise financeira tem servido também para justificar o nivelamento por baixo das condições de gestão do espaço público. Levou-nos as ruas e os jardins imaculados, deixou a meio a construção de uma escola pública e no papel a criação de um centro de saúde. A mesma crise amplificou ainda o maior flagelo social dos nossos tempos: o aumento brutal de seres humanos sem-abrigo, especialmente saliente no Parque das Nações.

Este é um tempo largo de empobrecimento colectivo e de incerteza, que deixará marcas profundas. Mas é também um tempo de experimentação e abertura a soluções criativas que podem ajudar-nos a inverter a espiral negativa. A grande vantagem da cidade, de qualquer grande cidade, é precisamente a capacidade de se reinventar a partir de ideias novas. É essa, aliás, a marca genética do Parque das Nações.

A ‘Biblioteca Académica de Lisboa no Pavilhão de Portugal’ – iniciativa cívica sob a forma de petição pública – pretende ser uma dessas ideias de reinvenção da cidade em tempo de crise. O objectivo é muito simples: acolher no Pavilhão de Portugal um grande espaço de estudo e trabalho académico, com uma biblioteca especializada em publicações científicas digitais, ao serviço do ensino, da investigação, da inovação e da cultura, aberta 24 horas por dia, 7 dias por semana, a estudantes e investigadores de todas as áreas disciplinares e instituições do ensino superior.

O Pavilhão de Portugal, pérola maior da arquitectura do Parque das Nações, foi a sala de visitas de Portugal na Expo’ 98, concebida pelos únicos arquitectos portugueses laureados com o prémio Pritzker: Siza Vieira e Souto de Moura. Não deixa de ser irónico (e simbólico) que o Pavilhão que leva o nome de Portugal tenha sido votado a um abandono que em nada dignifica a arquitectura portuguesa e o projecto urbanístico de revitalização desta zona da cidade.

Vivo no Parque e sou investigador doutorando em Lisboa. Com este registo de interesses, é legítimo pensar que a ocupação do Pavilhão de Portugal que aqui defendo não passa de uma reivindicação corporativa, vinda de dentro da comunidade académica (e, no meu caso, até pessoal, pela conveniência de viver a quinze minutos a pé do Pavilhão).

A verdade é que as vantagens colectivas de ter no Pavilhão de Portugal e no Parque das Nações um novo pólo de atracção de milhares de jovens estudantes, investigadores e docentes, ultrapassam em muito o interesse individual de cada um dos leitores da Biblioteca. Por outro lado, a existir, a Biblioteca Académica formará com o Oceanário e o Pavilhão do Conhecimento um triângulo único e virtuoso de acesso ao conhecimento e de divulgação de ciência.

Sugiro vivamente que os caros leitores conheçam a iniciativa e a subscrevam. Ou que, em alternativa, aceitem o desafio de trazer para o espaço público outras ideias que ajudem a inverter esta trajectória de abandono e destruição do Pavilhão de Portugal, da qual resultará, inevitavelmente, a desvalorização de uma obra-prima da arquitectura contemporânea portuguesa que a todos pertence.

Nota: Para ler e subscrever a petição: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=biblio-acad-lisboa
Para acompanhar a iniciativa: facebook.com/bibliotecaacademicadelisboa

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Ficha Técnica

Director: Miguel Ferro Meneses

Redacção: Ana Penim; André Ribeirinho; Carmo Miranda Machado; Conceição Xavier; Diogo Freire de Andrade; Miguel Soares; Paulo Andrade; João Bernardino; João Catalão; José Teles Baltazar; Pedro Gaspar; Rita de Carvalho; Sara Andrade; Sónia Ferreira

Fotografia: Miguel Ferro Meneses

Direcção Comercial: Bruno Oliveira (Directo - 966 556 342)

Revisora: Maria de Lurdes Meneses

Produção: Central Park

Impressão: GRAFEDISPORT Impressão e Artes Gráficas, SA

Tiragem: 13.500 Exemplares

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